Adolescência não tem roteiro simples – e tudo bem

Postado em:
16/4/25

Por Bruna Waitman,

Diretora Executiva do Instituto Sol

Estamos todos impactados com Adolescência, a nova série da Netflix. No fim das contas, ela nos toca tanto porque nos lembra da complexidade do ecossistema que envolve um adolescente. Nosso cérebro quase implora por uma solução simples — um culpado, uma causa raiz que explique tudo, um plot twist que resolva a questão. Mas nada disso acontece. Tão real quanto os planos-sequência que sustentam cada episódio é a própria vida — somos atropelados pelos acontecimentos e sentimos o coração acelerar, como a câmera que corre em busca de respostas e personagens.

No último episódio, mergulhamos na família — depois de passarmos pela polícia, pela escola e pela psicóloga. E é aqui que quero focar.

Muitas vezes, ao falarmos sobre os desafios intergeracionais na educação, concentramos nossa atenção na relação entre professor e aluno — que, como a série retrata, é profundamente impactada pelo desencontro entre gerações. Mas e dentro da família? A proximidade física ou a quantidade de horas que um adulto responsável passa ao lado do estudante deveria ser suficiente. Mas não é. Nem sempre enxergamos, mesmo quando estamos vendo. Uma troca de comentários aparentemente inofensiva em uma rede social pode não ser tão banal quanto parece.

Aqui, a ideia não é falar do que nos distancia, mas do que nos aproxima. Para que o mundo adulto compreenda os adolescentes, precisamos reconhecer que a lógica dessa fase da vida não é tão diferente da que vivemos: a busca por pertencimento. O que mudou foi o alcance. Com as redes sociais, os adolescentes pertencem a comunidades globais, são impactados por pessoas de diferentes idades e de diversas partes do mundo. Por isso, os temas que os unem, as linguagens e os códigos que utilizam são muito mais elaborados.

No fim do dia, a solução está em reunir todos os atores desse cenário. Ao longo dos quatro episódios, cada parte do ecossistema se mostra falha em resolver o problema sozinha. Se pudéssemos levar a câmera para transitar entre um episódio e outro, se um drone decolasse da escola e pousasse na família, conectando-se à psicóloga, sairíamos fortalecidos.

No Instituto Sol, acreditamos nisso. Apoiamos jovens adolescentes na construção de seus projetos de vida e na conexão com oportunidades para cursar o ensino médio, seja em uma escola técnica ou por meio de programas de bolsas. Diariamente, ouvimos seus sonhos, anseios e medos — e envolvemos suas famílias nesse processo. Sentimos a diferença que faz contar com parceiros e trabalhar com escolas públicas e privadas que promovem e acreditam nessa troca. Nossa equipe inclui psicólogas para reforçar essas conversas, criando espaços mais seguros e abertos ao diálogo. Realizamos encontros que conectam os responsáveis às temáticas, promovemos debates com educadores, psicólogas e famílias. A história de um ajuda o outro a entender melhor.

Falamos tanto sobre aprendizado entre pares na educação; aqui, promovemos isso entre os adultos. Quando um responsável compartilha com outro o que aprendeu sobre o universo dos jovens, tudo se torna mais tangível. E a mediação é sempre valiosa. Sabemos que criar espaços, repertório e oportunidades para essas trocas não é tarefa fácil.

Ainda temos um longo caminho pela frente, mas, se deixarmos de ser episódios isolados e nos tornarmos uma única narrativa, chegaremos lá.

Bruna Waitman é formada em Administração Pública pela FGV e atua como CEO do Instituto Sol. Foi responsável pela ampliação das escolas de tempo integral na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, passando de 300 para quase 2.500 unidades. Também coordenou a criação e implementação do Centro de Mídias da Educação de São Paulo e esteve à frente da Escola de Formação para Profissionais da Educação no Estado.

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